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Você diz que não se importa, mas, no fundo, você se importa sim.

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As pessoas julgam porque estão cansadas de criticar a si próprias, e quando julgar não cura a ferida, elas julgam outra vez.

 

Beleza nunca é sinônimo de inocência.

Moral, afinal [2]

Há muito tempo, havia uma rainha, que morava no maior dos castelos do país. O seu reino não era pobre. Do contrário, era um dos mais ricos de todo o planeta. Diferente de muitas outras rainhas, essa não era má e queria, por exemplo, a beleza ou a juventude eterna. Ela era boa para seu povo e governava com sabedoria. O seu único defeito era a cobiça.

Quando seu marido era vivo, ele conseguia controlá-la. Sua necessidade materialista era latente próxima dele. Ela cobiçava, mas como o rei era sábio, ele conseguia mostrar a ela o lado importante da vida: a felicidade, o amor, os amigos, o conforto. Ele conseguia fazê-la enxergar que já tinha tudo o que queria; aos poucos, eles já haviam conquistado o mundo.

Com a morte do rei, o sentimento de cobiça da rainha retornou com veemência. Sua necessidade era desgovernada, seu materialismo, impossível de remediar. Com seu marido ao seu lado, ela podia manter as rédeas do palácio, mas sem ele, seu apetite voraz levava a melhor.

A governante, portanto, passou a se arruinar sem se dar conta disso. Comprava vestidos de que não precisava, sapatos que nunca usaria, tiaras que nem cabiam em sua cabeça. Não podia dar voltas no palácio sem precisar comprar todas as mercadorias que os vendedores a ofereciam e nem alimentos para seu estoque que, como parte da realeza, já era praticamente ilimitado. Quando seus itens pessoais não couberam mais em seu armário de bronze, ela fez com que construíssem outro, dessa vez prateado. E quando este se encheu, ela mandou fazer mais um, este, dourado.

Aos poucos, o reino quedava às custas dos desejos da rainha. Ela amava seu povo, seus súditos e empregados. Mas sua necessidade de ter mais e mais estava acima de qualquer outra prioridade. Em meio à sua coleção desenfreada, afastou o povo, que se descontentou com suas medidas. Deixou que a comida acabasse, que a pobreza se instalasse e causou, por fim, um colapso irreversível. Muitas mortes aconteceram no reino, e o palácio perdeu as condições de angariar fundos para reverter o ocorrido. A rainha, então, cortou os salários do povo, aumentando a sua fortuna.

A mulher tornou-se em pouco tempo a figura mais rica de todo o mundo. Conseguiu, dessa forma, avançar em seu sonho. Nunca era demais. Não havia excessos. Havia apenas um mundo de possibilidades e coisas para se obter que ela ainda não possuía e que, obviamente, eram tão necessárias e ainda melhores que as que ela deixara para trás.

Certo dia, em um de seus passeios por uma cidade vizinha, a rainha entrou em um antiquário. Ela também sabia apreciar a beleza das coisas antigas. Os funcionários recuaram, admirados pela beleza e pelo poder que emanava da pessoa que acabara de entrar em seu humilde estabelecimento. Uma velha senhora atendeu-a.

“Gostaria de comprar um espelho”, a rainha disse solenemente à mulher em sua frente.

“É possível que a famigerada rainha não tenha um espelho em todo o palácio?”, espantou-se a velha senhora.

“Eu tenho uma sala só para espelhos”, riu a rainha, divertindo-se com a ideia da pobre vendedora, “Mas aqueles não são suficientes. Eles não são bons o bastante. Eu preciso de mais.”

A senhora podia ser pobre, mas não era ingênua. Ela reconheceu na rainha a loucura que se entranhava nela e viu uma possibilidade de ganhar algo com isso.

“Ah, nós temos muitos espelhos por aqui. Mas eu sei exatamente o que vossa majestade necessita”.

A velha abriu caminho por entre as quinquilharias até chegar a um espelho de moldura dourada, preso à uma parede, esticando-se do teto ao piso. Ele refletia todo o ambiente em volta delas através de sua superfície circular, e a sua grandiosidade atraiu a rainha. Ela deu um sorriso vencedor e virou-se para a velha mulher.

“Quanto quer por ele?”, perguntou, decidida a comprá-lo.

“Quero o seu palácio e tudo o que há dentro dele.”

A rainha, obviamente, viu-se em um intrincado conflito interno. Dar a essa pobre velha o seu palácio seria desistir de todos os bens que já conquistara, afinal, era isso que ela possuía dentro do castelo. No entanto, ter aquele espelho, o objeto mais belo que já lhe cruzara os olhos, seria um prazer inestimável. E, possivelmente, o suficiente para toda a sua vida.

“Temos um trato.”

Em poucos dias, a velha e sua família se mudaram para o palácio. A rainha não havia percebido de imediato que, agindo daquela forma, havia transferido, inclusive, seu governo àquela senhora. Com a nova Família Real no poder, o primeiro decreto foi a sua expulsão, aquela que levara miséria e sofrimento a tantas famílias. A norma deixava claro que a ex-governante nunca mais seria bem-vinda na cidade e que seria executada caso resolvesse voltar. Ela foi jogada para fora dos portões, portando apenas a roupa do corpo e um espelho enorme que não conseguia sequer carregar.

Sentindo-se traída e subjugada, a rainha olhou-se no grande espelho e se deu conta de que sempre possuíra o suficiente, mas sua sede por mais fez com que se tornasse implacável. Naquele instante, ela percebeu que nunca poderia voltar a ter o que uma vez tivera: seu palácio, sua fortuna…

E, com um peso ainda maior no coração, percebeu que sua família jazia dentro do palácio e, como parte do trato, não fazia mais parte de sua vida. Ela notou que o que realmente sempre importara — o amor e o carinho que recebia de todos — agora estava irrecuperavelmente perdido, atrás dos muros da cidade que, um dia, ela cuidara sabiamente.

O que se possui não é suficiente até ser impossível possuir outra vez.

Moral, afinal

— Estamos aqui.

Outra vez.

          Era 2012. Era véspera de Ano Novo. E era sua despedida também.

— Você sabe que não adiarei mais um ano. — ela disse, decidida.

— Pois eu acho que você vai. — ele revidou, confiante.

— Nós não podemos continuar assim. Eu prometi à minha mãe que me mudaria há dois anos! Eu terei que cumprir a promessa, eventualmente… É melhor que seja agora.

Ela começou a caminhar. Ele a segurou. Por que tudo precisava ser ainda mais complicado? Eles não podiam simplesmente se separar? Ele não poderia se mudar junto? Precisava sempre haver um empecilho na felicidade.

— Eu gostaria de ir, mas você sabe que eu não posso. — ele lembrou. Seu tom sugeria que ele sofria. Mas também não estava sendo fácil para ela.

— E eu gostaria de ficar. Mas eu não posso, igualmente.

— Você pode adiar a partida, mais uma vez…

Ela fez um som de impaciência. Não aguentava mais enrolar sua mãe. Queria ficar ali com ele, mas quanto tempo até ela perceber que ela enrolava cada vez mais e mais? Era um impasse: a sua felicidade ali, junto dele, ou a de toda a sua família, tendo-a com eles. E ela também sentia saudades. Mas soube que não mais do que sentiria por ele.

Ele não queria que ela fosse. Era a milésima vez que repetiam a conversa e ainda soava desesperadora. O que ele poderia dizer? Que amava quem ela era e o tudo o que ela fazia? Amava até quando ela estava irritada? Tudo parecia extremamente precipitado e totalmente inapropriado. Ele poderia dizer que sabia cada uma de suas expressões e decorara a ordem que enumerava seus CDs. Ele conhecia sua casa melhor do que ela mesma e sabia o que ela estava sentindo antes mesmo que ela descobrisse por si própria. Mas aquilo era o suficiente? Como manifestar tudo em palavras?

Ela suspirou. O lábio dele tremeu. Os dois se partiram.

— Eu amo você. — ele disse. — Isso muda alguma coisa?

A bolsa dela caiu com um fragor delicado no chão e ela segurou a mão dele.

— Muda tudo.

— E você acredita em mim totalmente? Não… não desconfia?

Então ela sorriu.

— Foi você quem me disse.

Meia-noite chegou. Os dois ainda não tinham se separado. A discussão seria adiada, de novo. Eterna e irremediavelmente.

A frase carrega o significado, mas o poder por trás das palavras vem de quem diz.

O pecado do ingênuo é achar que todo mundo é inofensivo.

Música…

…É viva. Juro para você. A música te conta segredos, te conta tristezas, te conta mistérios. As músicas são como os livros: pessoas. Cada uma delas é alguém, expressa a personalidade de alguém. Da mesma forma que cada palavra de um livro. Não necessariamente do autor ou compositor, mas definitivamente de alguém. Mas o que importa é que ela expressa a sua história também. A música reflete a alma, acalma, desembaraça. Ou então faz embaraçar ainda mais. De qualquer forma, música é perfeito. É colocar os fones para ser teletransportado para um mundo onde cada parte que se conecta é você. Uma escolha de música num iPod não é algo aleatório. É a reflexão do estado da alma. E cada vez que ele muda, a música também muda. Talvez não permanentemente, mas com certeza por um tempo. Mas isso também não é importante. O importante é conversar com a alma, viver o momento, ouvir música. Sempre e em todo lugar. Porque não há nada que se compare a encontrar você mesmo.